Fabio Schwartz

Mestre em Direito Econômico – Especialista e Professor de Direito do Consumidor e autor do livro Manual de Direito do Consumidor – Tópicos & Controvérsias

A cultura do consumismo: antecipando sonhos e aumentando dívidas

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Vivemos num mundo sustentado sobre o consumo. Diferentemente do que ocorria no passado, não compramos para suprir nossas necessidades genuínas, mas para atender necessidades criadas pelo mercado.
O marketing das empresas não foca mais o valor da durabilidade, mas sim o da novidade. Tal estratégia tem dado muito certo.
Queremos e sonhamos sempre com o último modelo, o último tipo. Almejamos estar na crista da onda, no topo, incluídos no clube fechado dos superantenados com a moda que muda em ciclos efêmeros.
Trocamos nossos bens de consumo muito antes do término de suas vidas úteis. O fazemos pelo puro prazer de sermos “exclusivos”.
Tenho, logo existo. Compro, logo sou feliz. Meu celular tipo 4 funciona muito bem, mas “preciso” ter o tipo 5 para não me tornar ultrapassado.
Vivemos, conforme alerta o sociólogo Zigmunt Bauman, numa sociedade líquido-moderna. Ou seja, nem mesmo nos acostumamos e dominamos as tecnologias atuais, já surgem outras para serem domadas. Nossos conhecimentos, portanto, não se solidificam. Tudo é líquido e escorre rapidamente pelas mãos.
Ocorre que esta ciranda tem um preço. A distância entre os sonhos e a realização destes é cada vez mais curta, ante a facilidade de obtenção de crédito. O crédito tem sido usado quase que como um vício, como única via para se adquirir os bens que tanto sonhamos.
Ninguém planeja mais. Dá muito trabalho. Além disso, os recursos de que “precisamos” estão ao alcance de um clique. É tudo fácil e descomplicado. Sem análise de SPC, Serasa; sem fiador, avalista e etc.
Assim, dos círculos exclusivos dos superantenados surgem os excluídos superendividados. Segundo Cláudia Lima Marques superendividamento “é a impossibilidade global de o devedor, pessoa física, consumidor, leigo e de boa-fé pagar todas as suas dívidas atuais e futuras de consumo”.
A grande doutrinadora divide os superendividados em ativos e passivos. Os passivos são aqueles que incorrem nesta condição por ocasião de algum revés em suas vidas, tal como uma doença, por exemplo.
Neste texto nos interessa o superendividado ativo. O Superendividamento, na sua forma ativa, é uma condição que surge após a demonstração de incapacidade de planejamento. Após a antecipação irrefletida e impulsiva de desejos que podiam e deviam ter esperado.
Os agentes financeiros, que fomentam a tomada de crédito de forma irresponsável, devem – ou ao menos deveriam – arcar com o ônus desse comportamento.
Os órgãos de proteção e defesa do consumidor, muito mais do que com qualquer outro assunto, têm sido contingenciados com renegociações de dívidas. As instituições financeiras têm liderado cada vez mais as listas de reclamações. Isto é um sintoma muito preocupante.
Entretanto, o objetivo deste editorial não é perquirir a responsabilidade dos bancos, que é muito grande neste campo, mas é de apenas fazer um alerta: planejar, poupar, esperar, refletir, pesquisar, todos estes são verbos cada vez mais em desuso nos dias atuais.
Já que o marketing moderno é incutir que tudo é para agora, bom mesmo é que aprendamos, para ontem, que temos que nos educar financeiramente.
O bolso, a saúde, e o planeta agradecem. Afinal, se a vida é passageira, os recursos naturais utilizados para produzir os bens que consumimos são finitos. Até quando o mundo aguentará o ritmo desenfreado de consumo atual?
Bom mesmo é se parássemos de comprar o que não precisamos, com o dinheiro que não temos, para impressionar quem não conhecemos, tentando ser o que não somos. Pense nisso.
Boa semana para todos!

4 comentários em “A cultura do consumismo: antecipando sonhos e aumentando dívidas

  1. yara mello
    20 de agosto de 2013

    ESTE ARTIGO ESTÁ MUITO BOM.MUITO BOA PQ DESPERTA PESSOAS Q VIVEM SONHANDO ALTO E SE INDIVIDAM SÓ P MOSTRAR P A SOCIEDADE AQUILO Q NÃO SÃO!

  2. Samile
    7 de fevereiro de 2014

    Prezado Fábio,

    Por acaso “esbarrei” com esse site e adorei seus artigos! Sobre a questão do consumismo, é com tristeza que vejo gente endividada em constante “negação”. Atualmente existe uma propaganda de um banco em que uma família está viajando de carro por uma estrada, e aparecem placas dizendo: “pagar IPTU”, “pagar IPVA” etc, e o tal banco oferece créditos para essa família fazer frente às despesas de início de ano, sem deixar de viajar. Aí é que reside o cerne do problema: antigamente, quem não tinha dinheiro não viajava, simples assim. Ou viajava com meios mais modestos. Querer fazer viagens ao exterior com toda a família, já se endividando para pagar as contas do início do ano, é abraçar uma ilusão cuja bolha estoura rápido, levando o consumidor a uma amargo pesadelo. Meu pai abomina o uso do cartão de crédito, segundo ele, é como “comprar fiado”, compromete-se a pagar com um dinheiro que NÃO SE TEM. Para quem é servidor público até se permite uma certa liberalidade, visto que o pagamento é garantido todo mês, mas para os assalariados que não sabem o dia de amanhã, realmente é uma temeridade… Abraços, Samile.

  3. Samile
    7 de fevereiro de 2014

    Apenas corrigindo: “levando o consumidor a UM amargo pesadelo… “

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